Há histórias no futebol português que parecem desenterradas de um cofre antigo, repletas de nomes sonantes, memórias de um passado em que os relvados cheiravam a lama e coragem, e detalhes caricatos que o tempo se encarrega de eternizar. Ramires, antigo extremo-direito e uma das figuras incontornáveis da história do Alverca, abriu o livro de memórias para recordar os tempos dourados em que os ribatejanos desafiavam os grandes do futebol nacional.
Entre recordações de lendas, elogios profundos a craques mundiais que deram os primeiros passos no Ribatejo e confissões sobre a sua vida atual — onde conduz carrinhas como motorista de Uber há oito anos —, Ramires reviveu o dia em que marcou à lenda portista Ivica Kralj num "frango monumental".
O Frango de Kralj e o Enguiço que Nunca Se Quebrou
Os duelos entre Alverca e FC Porto na viragem do milénio deixaram marcas profundas, e Ramires detém um estatuto muito particular nessa contenda: foi o primeiro jogador dos ribatejanos a faturar frente aos dragões, em 1998, repetindo a proeza na inesquecível época 1999/2000 — uma temporada em que o Alverca arrancou dois empates épicos aos azuis e brancos (0-0 nas Antas e 1-1 em casa).
O golo apontado no empate caseiro, contudo, ficou marcado por um erro histórico de Ivica Kralj, o internacional montenegrino que figura na galeria dos maiores flops da baliza portista:
A fífia monumental: «Lembro-me perfeitamente do lance. Ele abordou mal a bola num canto curto, estava a chover, tentou socá-la, mas ela resvalou na luva e entrou, foi uma fífia. Foi mais demérito dele do que mérito meu», confessou sem filtros.
O enguiço histórico: Apesar de o Alverca ter conseguido vencer outros colossos ao longo da sua história na elite (como Sporting, Benfica, Boavista ou SC Braga), o FC Porto manteve-se como a grande "ilha inalcançável". «Curiosamente, o FC Porto foi a única equipa grande que nunca conseguimos vencer enquanto estive no Alverca. Só empatámos ou perdemos», recorda.
Deco, Maniche e Hugo Leal: A Máquina Jovem da II Liga
Olhar para o passado do Alverca é perceber um viveiro de talentos inacreditável, geracionalmente irrepetível. Sob a batuta técnica e a mística ribatejana, cruzaram-se jovens promessas que viriam a marcar o futebol mundial.
«Era uma equipa inacreditável para a II Liga. A média de idades era de 20 ou 21 anos. Tínhamos o Deco, o Maniche, o Juba, o Hugo Leal... o nosso meio-campo era fortíssimo», enaltece Ramires, destacando o impacto imediato do futuro craque do Barcelona e da Seleção Nacional:
«O Deco, a partir da segunda volta, agarrou o lugar e nunca mais saiu. Dava para ver que ia ser um dos melhores médios do Mundo. Ele e o Maniche tinham uma qualidade acima da média. Jogar com o Deco era fácil, ele vinha sempre fazer tabelas comigo na linha.»
Da Alta roda ao Volante da Uber
Formado no eterno rival Sporting e com passagens marcadas por empréstimos do Benfica antes de se vincular em definitivo ao Alverca, Ramires encerrou a carreira em 2011/12 no futebol luxemburguês.
Hoje, a realidade é bem diferente dos holofotes dos relvados da I Divisão. Fora do meio futebolístico — com uma breve passagem como treinador adjunto nos escalões de formação a convite do amigo Jorge Andrade —, Ramires encontrou estabilidade numa nova profissão: motorista de Uber, atividade que exerce orgulhosamente há já oito anos, mantendo vivo no rosto o sorriso de quem pisou os relvados ao lado de lendas.
Opinião do Editor
A viagem nostálgica proporcionada por Ramires ilustra na perfeição o romance romântico e imprevisível que o futebol português albergava no final dos anos 90 e início dos anos 2000. Um clube como o Alverca servir de incubadora a monstros sagrados do calibre de Deco e Maniche, enquanto desafiava tubarões com recursos parcos e muita coragem, parece hoje um cenário quase irreal na era do futebol industrial e hiper-regulado. Histórias como a do frango de Kralj ou a serenidade com que um antigo craque abraça a vida fora dos relvados humanizam a modalidade, lembrando-nos que, por trás de cada camisola e de cada lance histórico, existem vidas reais e memórias indeléveis.

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